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Racismo volta a manchar a Copa do Mundo e expõe que o preconceito ainda joga em campo

Quando o preconceito fala mais alto que o esporte, todos perdem.

A Copa do Mundo de 2026 tem sido marcada não apenas pelas disputas dentro de campo, mas também por uma onda crescente de episódios racistas que atingiu jogadores, torcedores e profissionais de imprensa ao longo do torneio. Um levantamento divulgado pela FIFA nesta semana expõe a dimensão do problema: mais de 6 milhões de publicações foram monitoradas durante a fase de grupos pelo Serviço de Proteção às Redes Sociais da entidade. Desse total, 225 mil publicações e comentários foram encaminhados para revisão humana, processo que resultou na identificação de 89 mil conteúdos abusivos, sendo o abuso racial, em todas as suas formas, a categoria mais recorrente entre as manifestações de ódio. O relatório ainda mostra que o volume de publicações analisadas cresceu 33% em relação à edição anterior do torneio, com cerca de mil contas encaminhadas para investigação. iclnoticias

Diante da repercussão, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, reagiu à onda racista afirmando que o racismo na internet está fora de controle e que muitas das mensagens de ódio são ilegais e devem ser investigadas. Em nota, a própria FIFA classificou o discurso discriminatório como uma ameaça persistente ao bem-estar dos jogadores.

Em campo, um dos episódios de maior repercussão envolveu o streamer norte-americano IShowSpeed, que cobria o torneio ao vivo para milhões de seguidores. Vestindo a camisa de Cabo Verde durante a partida contra a Argentina, o influenciador registrou torcedores argentinos o hostilizando com insultos, gestos obscenos e imitações de macaco. Dias depois, durante o confronto entre Argentina e Egito, o criador de conteúdo voltou a denunciar ter sido alvo de ofensas racistas nas arquibancadas, desta vez após um torcedor argentino fazer gestos associados a macacos em sua direção, o que levou a FIFA a abrir uma investigação sobre o caso.

O episódio de maior repercussão internacional, no entanto, envolveu o atacante francês Kylian Mbappé e a senadora paraguaia Celeste Amarilla. Após a eliminação do Paraguai para a França nas oitavas de final, a parlamentar publicou uma série de ofensas contra o capitão da seleção francesa, chamando-o de “camaronês colonizado, fingindo ser francês” e fazendo comparações racistas envolvendo primatas. Mbappé respondeu classificando a senadora como uma mulher “desprezível e indigna de seu cargo” e afirmando que ela não representava o povo paraguaio. Em vez de recuar, Amarilla intensificou o tom nesta terça-feira (7), advertindo o jogador a não subestimar os paraguaios e relembrando a prisão do brasileiro Ronaldinho Gaúcho no país em 2020 como forma de ameaça, chegando a afirmar que poderia processá-lo por violência política de gênero. MigalhasJovem Pan

A repercussão ultrapassou o campo esportivo. A Federação Francesa de Futebol classificou as declarações da senadora como criminosas, repugnantes e inaceitáveis, anunciando a adoção de medidas judiciais contra a parlamentar, enquanto o Ministério Público de Paris abriu investigação por injúria racial e incitação ao ódio. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos também se manifestou, classificando as falas de Amarilla como racistas, desumanizantes e desprezíveis, e reforçando que episódios como esse não são isolados. CNN Brasil

O racismo durante o Mundial não poupou sequer os bastidores da cobertura jornalística. A repórter brasileira Marcella Monteiro, da TV Globo, relatou ter sido submetida a uma fiscalização mais rigorosa por agentes de imigração ao desembarcar nos Estados Unidos para cobrir o torneio, com questionamentos repetidos sobre sua documentação e surpresa demonstrada ao saberem que ela era repórter esportiva credenciada, tratamento que, segundo ela, não foi observado com outros profissionais estrangeiros.

Para tentar conter a escalada de casos, a FIFA mantém desde 2024 um protocolo antirracista aprovado por todas as 211 federações filiadas à entidade. O procedimento prevê que, ao identificar uma manifestação discriminatória, árbitros podem interromper a partida e emitir um comunicado ao estádio; se as ofensas persistirem, o jogo é suspenso e as equipes deixam o gramado; em uma terceira fase, o confronto pode ser encerrado definitivamente. O mecanismo já foi acionado em ao menos um amistoso da atual temporada, quando torcedores espanhóis entoaram cânticos islamofóbicos contra a seleção egípcia.

Os episódios reunidos nesta edição da Copa do Mundo reacendem um debate antigo no futebol mundial: o de que protocolos e multas, isoladamente, não têm sido suficientes para conter o racismo nos estádios e nas redes sociais. Enquanto entidades esportivas e organismos internacionais reforçam o discurso de tolerância zero, casos como o de Amarilla mostram que, mesmo diante de investigações formais, a disposição para o confronto racista segue presente também fora de campo — inclusive entre autoridades públicas

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