Cidades Colunistas Esporte World

Lugar de mulher é onde ela quiser

Há derrotas que machucam. Há declarações que ferem. E, no futebol brasileiro, infelizmente, ainda existem momentos em que a frustração ultrapassa o limite do aceitável e escancara um problema que deveria estar definitivamente superado. Após a derrota por 2 a 1 diante do São Paulo, em partida válida pelo Campeonato Paulista, o zagueiro do Red Bull Bragantino, Gustavo Marques, protagonizou um desses episódios que não podem ser tratados como mera “fala de momento”.

Ao afirmar que a Federação Paulista de Futebol não deveria designar uma mulher para apitar um jogo “grande”, o atleta não apenas questionou uma arbitragem — algo natural no calor de qualquer derrota — mas atingiu algo muito maior: o direito inegociável de competência e respeito. O futebol, que tantas vezes se orgulha de ser o espelho da sociedade, revelou mais uma vez que ainda carrega sombras que insistem em permanecer.
É possível compreender o contexto emocional de um jogador derrotado. O futebol é intensidade, é pressão, é sentimento à flor da pele. Palavras escapam quando a razão ainda tenta se recompor após o apito final. Acredita-se, sim, que tenha sido um momento impensado, fruto da frustração e não de convicção refletida. Mas compreender não é absolver. Entender não é aceitar. E, sobretudo, silenciar jamais será uma opção.
O que precisa ficar absolutamente claro é que a competência não tem gênero. A autoridade dentro de campo não é definida por quem apita, mas por como se apita. A qualidade de um profissional não se mede pelo sexo, mas pela preparação, pela coragem e pela capacidade de tomar decisões sob pressão — atributos que independem de qualquer rótulo.
O futebol brasileiro, que tanto evoluiu dentro das quatro linhas, precisa acompanhar essa evolução fora delas. O lugar da mulher não é determinado por arquibancadas de preconceito, mas pela liberdade de escolha. O lugar da mulher é onde ela quiser estar: no comando de uma partida decisiva, na liderança de uma instituição, na construção de uma história.
Palavras têm peso. No esporte, ecoam ainda mais forte. Que este episódio sirva como reflexão, não como precedente. Que a indignação se transforme em aprendizado. E que o respeito — elemento essencial de qualquer competição — jamais seja novamente colocado em dúvida.

Colaboração- Jornalista Dela Oliveira/ jornalistadelaoliveira@gmail.com

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *