A revolução invisível que já chegou e a governança não está acompanhando

*Por Vander Muniz, Conselheiro da DMK3
Existe um Brasil que não aparece nas manchetes dos jornais, mas que impacta quase tudo o que fazemos. Nele, o crédito é decidido por um modelo de inteligência artificial antes mesmo do gerente da agência saber o seu nome; o diagnóstico médico passa por um algoritmo que sugere o que ele deve falar; e o RH seleciona currículos por critérios que nem o próprio recrutador sabe explicar. Com esse cenário, o boleto, o atendimento, a triagem e a aprovação, por exemplo, foram, silenciosamente, delegados a sistemas que poucos realmente entendem por completo.
Essa é a adesão digital brasileira em 2026, e ela é bem real. Você aí, sentado, lendo esse artigo, está nesses números. O país entrou para o grupo de nações com nota acima da média da OCDE em governo digital. Os pequenos negócios bateram recorde de digitalização. Serviços financeiros, varejo e telecomunicações operam em padrões internacionais. Uma pesquisa da PwC/Fundação Dom Cabral mostra que o número de empresas “visionárias” em transformação digital saltou de 20% para 27% em 2024. O Pix, recentemente, virou estudo de caso. A frenética mudança tecnológica chegou e vai ficar.
As IAs estão à frente do seu tempo?
Aqui, a questão que precisamos olhar é se as IAs chegaram antes de algo que deveria tê-las antecedido, no caso, uma governança que seja capaz de sustentá-la, defasagem essa que podemos observar nos números.
Segundo relatório de 2025 da Fortinet, o Brasil teve 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos, com tempo médio entre a divulgação de uma falha e sua exploração caindo para menos de 48 horas. As Drogarias Globo, do Rio Grande do Norte, tiveram um prejuízo estimado em mais de R$400 milhões em um único ataque.
Tribunais, prefeituras e hospitais também entram nessa estatística. Em um levantamento da Grant Thornton com o Opice Blum, apresentou que 79% das empresas brasileiras se reconhecem mais expostas hoje do que há cinco anos, mas só 44% têm a alta administração efetivamente envolvida no tema. Em contraponto, a pesquisa do The Shift detalha que 80% das empresas dizem colocar segurança no topo das prioridades, mas ainda assim apenas 29% mantêm um CISO dedicado.
Observa-se, então, que há diagnóstico, consciência discursiva do risco e, em muitos casos, até um orçamento aprovado para combater o risco. Porém, o que falta é a estrutura institucional capaz de transformar isso em decisões, que é o centro do problema brasileiro: precisamos parar de tratar governança como sinônimo de “compliance“, palavra que, no nosso vocabulário corporativo, virou eufemismo para checklist.
A governança e suas nuances nos dias de hoje
Na era da IA generativa e da exposição cibernética, a governança digital se tornou outra coisa, perdendo seu caráter inicial e transformando-se em algo novo, estando muito mais na capacidade de uma organização responder, com clareza e em tempo útil, a quatro perguntas estruturantes: 1) Quem é o dono de cada decisão automatizada que tomamos? 2) Quem audita os modelos que usamos antes de eles produzirem dano? 3) Quem tem competência para interromper uma operação digital em curso quando algo dá errado? 4) Quem responde, internamente e perante ao regulador, quando o sistema falha?
As organizações que não conseguem responder essas perguntas hoje, com nomes e prazos, não têm governança digital. Na prática, conseguir se preparar para esse cenário exige três movimentos concretos:
- Tratar IA generativa e cibersegurança como assuntos de pauta permanente do conselho, e não como itens técnicos delegados à diretoria executiva: conselhos brasileiros ainda discutem tecnologia sob o vocabulário do orçamento, debatendo quanto vamos investir, em que sistema, com que retorno, mas as perguntas corretas hoje são outras e devem considerar quais decisões críticas do negócio já estão sendo tomadas por algoritmos, como elas funcionam, quantos dias dá para operar sem os sistemas, que dados pessoais saem da empresa diariamente e para onde vão. Conselhos que não conseguem responder isso estão chancelando riscos que não compreendem.
- Construir uma camada consultiva técnica próxima ao conselho, não para substituí-lo, mas para municiá-lo: é o papel que conselhos consultivos, comitês de risco tecnológico e perfis como o do conselheiro independente com formação digital começam a ocupar nas empresas mais maduras. Trata-se de gente capaz de traduzir o que o “rapaz da TI” está realmente dizendo quando fala em “superfície de ataque”, de questionar o cientista de dados sobre vieses do modelo de crédito, de provocar o jurídico sobre o impacto da LGPD numa nova funcionalidade. Essa camada não existia há dez anos porque não era necessária, mas sua ausência hoje é o que separa empresas que descobrem problemas antes daquelas que descobrem depois.
- Aceitar o desafio de que a governança digital demanda ritmos diferentes: conselhos que se informam por reuniões trimestrais e diretorias que respondem por incidentes em comitês mensais estão, por definição, atrasados em relação ao risco que precisam administrar. Por exemplo, um modelo de IA generativa pode ser treinado em janeiro com dados enviesados que só vão produzir um escândalo em julho; uma vulnerabilidade descoberta numa segunda pode ser explorada na terça; o dado vazado hoje gera prejuízos em duas semanas, dentre tantas outras situações.
A maturidade aqui, então, significa criar fluxos de informação contínuos antes do incidente acontecer e não depois. Apesar disso não ser a solução para tudo, a partir disso você pode mitigar os riscos. É a mesma lógica do seguro do carro, que visa não o agora, mas sim o caso de um acidente, para que exista uma forma de reduzir o dano.
As novas regulamentações e exigências da tecnologia
Caso essas questões ainda não sejam o suficiente para alertá-los, a regulação chega para movimentar aquelas empresas que ainda não estão convictas sobre o tema. O PL 2338/2023, marco legal da inteligência artificial, foi aprovado no Senado em dezembro de 2024 e está na Câmara com expectativa de votação ainda este ano. Inspirado no AI Act europeu, classifica sistemas por risco, exige avaliação de impacto algorítmico, prevê multas de até R$50 milhões e impõe estruturas formais de governança para programas e algoritmos de alto risco (exatamente os que decidem crédito, emprego, saúde e segurança pública).
Somado a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), tem-se uma visão mais ampla de que a era da experimentação digital sem prestação de contas está acabando. Vale dizer que não se trata de “demonizar” a tecnologia, mas sim dar a devida importância à maturidade digital brasileira. Essa é uma conquista que ampliou o acesso bancário, melhorou diagnósticos, encurtou filas no setor público e criou empresas e empregos. O ponto não é “frear” o movimento, é exigir que ele venha acompanhado da estrutura madura que esse salto requer.
Para CEOs e presidentes de conselho, a recomendação é direta: coloquem a IA generativa e cibersegurança na pauta das próximas reuniões, dando-lhes um tempo dedicado e não como um informe rápido. Identifiquem quem responde por cada decisão automatizada relevante da operação e construam a camada consultiva técnica que falta entre a diretoria e o conselho. Quem fizer isso por convicção agora vai economizar muito em breve.
Sobre a DMK3
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